Oferta de usados rejuvenesce mais depressa do que a procura
De acordo com a análise mais recente do Observatório Indicata, o mercado europeu de veículos usados está a receber uma oferta cada vez mais jovem e eletrificada, mas a procura não está a acompanhar o mesmo ritmo. Em agosto de 2026, os veículos com menos de dois anos representam 40,02% do stock europeu, mas apenas 30,71% das vendas. Já os automóveis com cinco ou mais anos, que correspondem a 37,41% da oferta, concentram 44,58% das transações.
O mercado europeu de usados está, assim, a enfrentar menos um problema de falta de produto e mais um desafio de absorção. A oferta está a modernizar-se rapidamente, enquanto os compradores continuam a mostrar maior disponibilidade para avançar quando a desvalorização do veículo é mais evidente e a proposta económica é mais fácil de justificar.
A diferença é particularmente clara nos veículos com menos de dois anos. Estes representam 40,02% do stock europeu, mas apenas 30,71% das vendas, uma diferença de 9,31 pontos percentuais entre o peso na oferta e o peso nas transações. No extremo oposto, os automóveis com cinco ou mais anos representam 37,41% do stock, mas chegam aos 44,58% das vendas, ou seja, 7,17 pontos percentuais acima da sua presença na oferta.
O Observatório Indicata indica que isto não significa que os compradores estejam a rejeitar os automóveis mais recentes. O que os números mostram é que existe uma maior dificuldade em absorver esse produto aos níveis de preço que os operadores pretendem. Nos veículos mais antigos, pelo contrário, a desvalorização já está mais refletida no preço, tornando a compra mais fácil de enquadrar para o consumidor.
Os veículos elétricos são um bom exemplo desta realidade. Os BEV representam 8,60% do stock europeu e 9,64% das vendas, o que significa que estão a ser vendidos proporcionalmente acima do seu peso na oferta. A diferença é de 1,04 pontos percentuais. No entanto, esta maior rotação surge num contexto de forte correção de preços: o índice de preços de retalho dos elétricos está nos 63,66 pontos e o Market Days Supply situa-se nos 64 dias.
Ou seja, os elétricos usados estão a encontrar compradores, mas isso não deve ser confundido com uma recuperação dos seus valores. A procura aparece quando o preço se aproxima do nível que o mercado está disposto a aceitar.
“Os elétricos usados voltaram a rodar com regularidade, mas seria um erro ler isso como uma recuperação de valor. Rodam porque o preço já corrigiu o suficiente para encontrar comprador”, explica Yoann Taitz, Regional Head of RV Forecast e Market Expert do Indicata. Segundo o responsável, o desafio para quem gere stock passa agora por garantir que existe procura suficiente para os veículos ao preço a que são colocados no mercado.
Entre as diferentes tecnologias eletrificadas, o comportamento também não é uniforme. Os híbridos ligeiros representam 12,87% das vendas, mas já correspondem a 14,54% do stock, uma diferença de 1,67 pontos percentuais que coloca a oferta acima da procura relativa. Parte deste aumento está relacionada com a própria evolução das gamas dos fabricantes, que têm substituído motorizações convencionais por versões híbridas ligeiras.
Os híbridos convencionais apresentam um cenário diferente. Com um MDS de cerca de 61 dias, encontram-se entre as motorizações com melhor rotação no mercado europeu de usados. A sua proposta combina menor consumo com uma tecnologia já conhecida, sem necessidade de carregamento externo, o que ajuda a explicar a sua capacidade de encontrar comprador.
Nos híbridos plug-in, o Observatório Indicata indica que a realidade é mais difícil de generalizar. A procura depende fortemente das políticas fiscais de cada país, da composição das frotas e dos hábitos de utilização. Por isso, a evolução deste tipo de veículo no mercado de usados poderá ser bastante diferente de país para país.
É precisamente esta dimensão geográfica que impede uma leitura uniforme do mercado europeu. Reino Unido, Noruega, Finlândia ou França encontram-se em momentos diferentes da transição para a eletrificação e apresentam níveis distintos de procura, preços e disponibilidade de veículos usados. A tecnologia pode ser a mesma, mas o ritmo a que cada mercado consegue transformar stock em vendas é diferente.
Para os operadores portugueses, a principal conclusão está na necessidade de acompanhar cada vez mais de perto a relação entre aquilo que entra em stock e aquilo que os compradores estão efetivamente dispostos a pagar. Uma oferta mais recente ou mais eletrificada não garante, por si só, maior liquidez.
A disciplina na aquisição e na definição de preços ganha, por isso, um peso crescente. À medida que os veículos provenientes das atuais estratégias de produto dos fabricantes e das renovações de frotas chegam ao mercado de usados, a capacidade de antecipar a procura poderá ser tão importante como a escolha do próprio veículo.
O chamado pipeline de usados torna-se, assim, um fator relevante para os valores residuais. Os MHEV continuam a ganhar espaço à medida que as gamas evoluem, os BEV conseguem gerar rotação quando os preços refletem a realidade da procura e os HEV apresentam atualmente um equilíbrio interessante entre utilização, rotação e valor.
