Preço dos combustíveis impulsiona procura por elétricos usados

A subida dos preços dos combustíveis provocada pelo conflito com o Irão levou os consumidores europeus a procurar mais veículos eléctricos usados a bateria, interrompendo pela primeira vez em mais de dois anos a tendência de queda dos seus valores residuais. A conclusão consta de um estudo do Indicata, baseado na análise diária de mais de 14 milhões de anúncios de veículos usados em toda a Europa.

O estudo indica que a recuperação dos preços foi impulsionada por um aumento efectivo da procura, motivado pela vantagem imediata dos veículos eléctricos nos custos de utilização, e não por um crescimento da oferta. Apesar desta evolução, a valorização permanece limitada quando comparada com a desvalorização acumulada nos últimos anos e não foi observada em mercados onde as políticas públicas continuam a colocar no mercado mais veículos eléctricos do que a procura consegue absorver.

Após a escalada do conflito no Golfo, no final de Fevereiro de 2026, o preço do petróleo Brent ultrapassou os 100 dólares por barril, levando a aumentos entre 17% e mais de 30% nos preços da gasolina e do gasóleo em vários mercados europeus. Esta alteração reforçou a competitividade económica dos veículos eléctricos e traduziu-se num aumento da sua procura no mercado de usados.

Na Europa, excluindo o Reino Unido, a quota dos veículos eléctricos a bateria nas vendas de usados passou de 9,2% em Fevereiro para 14,01% em Abril, recuando depois para 11,51% em Maio, mas mantendo-se acima dos níveis anteriores ao conflito. Em simultâneo, a disponibilidade destes veículos diminuiu, com a quota de oferta a cair de cerca de 10,9% em Janeiro para 8,1% em Maio, demonstrando que as vendas estavam a superar a reposição de stock.

O indicador Market Days Supply, que mede o tempo necessário para escoar o stock disponível ao ritmo actual de vendas, desceu de 106 dias no início de 2026 para apenas 47 dias em Maio. Na Alemanha, a redução foi ainda mais acentuada, passando de 112 dias em Fevereiro para 36 dias em Abril, antes de subir ligeiramente para 49 dias em Maio.

A redução da oferta disponível começou também a reflectir-se nos preços. O índice médio dos preços de retalho dos veículos eléctricos usados na Europa recuperou de 92,56% em Abril para 93,42% em Junho, registando a primeira subida sustentada desde o início da tendência de desvalorização. Na Alemanha, o índice aumentou de 95,89% para 98,36% no mesmo período.

Portugal acompanhou esta evolução, apresentando uma insuficiência de oferta próxima de 35% face aos níveis anteriores ao conflito e uma valorização aproximada de 0,8% nos dois meses analisados. Embora mais moderado do que noutros mercados europeus, o comportamento português foi consistente com a tendência verificada nos países onde a procura reduziu efectivamente a disponibilidade de veículos.

O estudo identifica, contudo, excepções. Na Bélgica, os preços dos veículos eléctricos continuaram a descer devido ao elevado volume de viaturas provenientes de frotas empresariais, enquanto no Reino Unido o Mandato ZEV continuou a incentivar a entrada de novos veículos no mercado, impedindo uma recuperação dos valores residuais.

“O choque dos combustíveis demonstrou que os consumidores reagem rapidamente quando a vantagem económica dos veículos eléctricos se torna clara. Mas mostrou também que a procura só consegue sustentar os valores residuais quando não é anulada por um crescimento da oferta desligado da capacidade real de absorção do mercado”, afirmou Andy Shields, director da USD Consulting e autor do estudo.

Apesar da recente melhoria, o estudo sublinha que os valores residuais dos veículos eléctricos usados permanecem muito abaixo dos registados no início de 2023. A continuidade da recuperação dependerá da evolução dos preços dos combustíveis, dos custos da electricidade e do equilíbrio entre a oferta e a procura nos próximos meses.

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