Mercado de usados em Portugal acompanha tendência europeia de estabilização

O mercado europeu de veículos usados está a entrar numa nova fase, marcada por uma pressão mais selectiva sobre os preços e por um risco crescente nos veículos quase novos, segundo revela a edição 76 do Observatório Indicata, divulgada a 16 de Junho de 2026. O estudo conclui que a correcção generalizada de preços deu lugar a um mercado mais estável, mas também mais exigente, em que a capacidade de cada viatura justificar o seu preço face às alternativas disponíveis passou a ser determinante.

A subida dos preços dos combustíveis, associada às tensões no Médio Oriente, está a influenciar as decisões de compra no curto prazo e a reforçar o interesse pelas motorizações electrificadas. Ainda assim, o Observatório considera que este factor não altera a tendência estrutural do mercado, que continua a evoluir para uma maior selectividade na formação dos preços e na protecção dos valores residuais.

Os veículos com menos de dois anos assumem agora um papel central nesta transformação. Representam 38,86% do stock europeu de usados, acima dos 35,65% registados em Julho de 2024, tornando-se pela primeira vez o maior segmento do mercado e ultrapassando ligeiramente os veículos com mais de cinco anos. Esta evolução aumenta a exposição ao risco, uma vez que estas viaturas concentram os valores absolutos mais elevados e enfrentam uma concorrência crescente por parte dos descontos, campanhas financeiras e incentivos disponíveis no mercado de automóveis novos.

As motorizações a gasolina e gasóleo continuam a dominar o mercado europeu de usados, sustentadas pela dimensão do parque automóvel e pela facilidade de utilização. No entanto, a gasolina perdeu peso nas vendas, passando de 43,04% em Julho de 2024 para 37,95% em Junho de 2026. O diesel mantém um índice de preços próximo do da gasolina, em torno dos 106%, mas apresenta uma rotação de stock mais lenta, num contexto em que os custos de utilização assumem maior importância para os compradores.

Nos veículos eléctricos, o estudo destaca uma redução do Market Days Supply para 50 dias em Junho de 2026, o valor mais baixo entre as principais motorizações. Contudo, esta maior rapidez de venda resulta sobretudo da forte correcção dos preços, com o índice de preços de retalho dos veículos eléctricos a situar-se nos 62,85%. Em paralelo, os híbridos continuam a ganhar espaço, beneficiando da combinação entre menores custos de utilização e a ausência de mudanças significativas nos hábitos de condução.

O Observatório conclui também que a evolução dos preços varia significativamente entre países. Excluindo a Turquia, Espanha apresenta a maior valorização face a Janeiro de 2020, com +10,4 pontos percentuais, seguida de Itália (+9,5), Polónia (+8,8), Alemanha (+6,6) e Reino Unido (+4,0). Portugal regista uma variação de +1,4 pontos percentuais, mantendo-se acima da média europeia, mas já num cenário de estabilização. Em sentido contrário, Dinamarca (-8,8), Suíça (-12,8) e Finlândia (-13,8) evidenciam as maiores quedas.

Entre os modelos com menos de quatro anos mais vendidos por volume na Europa destacam-se o Volkswagen Golf, o Volkswagen T-Roc e o Peugeot 208. Já na velocidade de rotação, os primeiros lugares pertencem ao Tesla Model 3, ao MG 5 e ao Tesla Model Y, demonstrando que os veículos eléctricos conseguem vender mais rapidamente quando os preços se tornam suficientemente competitivos.

Em Portugal, o Peugeot 2008, o Citroën C3 e o Peugeot 208 lideram as vendas por volume entre os modelos mais recentes. Na rotação mais rápida destacam-se o Ford Mustang Mach-E, o Kia Niro e o BYD Atto 3, confirmando que também no mercado nacional os veículos electrificados registam maior liquidez quando apresentam preços atractivos.

O relatório antecipa que a evolução dos valores residuais dependerá cada vez mais da diferença de preço entre os veículos usados e os automóveis novos em cada mercado. A crescente presença de marcas chinesas, sobretudo no Reino Unido, Espanha, Itália, Dinamarca, Polónia e Noruega, deverá aumentar a pressão competitiva sobre os preços dos veículos quase novos das marcas tradicionais.

“O mercado europeu de usados deixou de corrigir em bloco e passou a corrigir por zonas, sendo hoje no segmento quase novo que se concentra o verdadeiro risco sobre os valores residuais, precisamente onde o capital investido é maior. Os eléctricos estão a rodar mais depressa, mas fazem-no porque o preço já corrigiu, pelo que a questão central deixou de ser se vendem e passou a ser a que preço conseguem vender de forma sustentável”, afirmou Yoann Taitz, Regional Head of RV Forecast e Market Expert do Indicata.

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