Eléctricos usados ganham fôlego na Europa à boleia dos combustíveis mais caros
O mercado europeu de veículos usados entrou numa fase mais calma, com correções de preços menos abruptas, mas está cada vez mais exposto a choques externos. A edição de Maio de 2026 do Observatório Indicata mostra que a instabilidade no Médio Oriente e o aumento dos custos dos combustíveis estão a influenciar o comportamento de compra, dando novo impulso táctico aos BEV usados, embora sem configurar ainda uma recuperação estrutural.
O relatório do Observatório Indicata sublinha que o mercado europeu de usados deixou de ser conduzido apenas por dinâmicas internas de oferta e procura. A volatilidade dos preços da energia voltou a afectar directamente os valores residuais, tornando o mercado mais dependente de factores macroeconómicos externos.
BEVs recuperam atractividade com a subida dos combustíveis
A subida dos custos da gasolina e do gasóleo está a obrigar os compradores a olhar com mais atenção para o custo total de utilização de um automóvel usado. Neste cenário, os BEV recuperam parte do apelo económico que tinham perdido, não por uma adesão repentina e generalizada à mobilidade eléctrica, mas por uma decisão prática: perante combustíveis mais caros e voláteis, um eléctrico usado volta a ser visto como uma opção capaz de dar maior previsibilidade ao orçamento de mobilidade das famílias.
O relatório indica que esta mudança já está a ajudar a estabilizar, e em alguns países até a melhorar ligeiramente, os preços dos EVs usados. Ainda assim, o movimento deve ser interpretado como um apoio de curto prazo, não como uma recuperação estrutural. Os BEVs continuam expostos aos descontos agressivos nos veículos novos, à procura desigual entre mercados nacionais e à necessidade de um posicionamento de preço muito rigoroso no retalho.
EV deixam de ser os mais lentos a vender
O sinal mais forte de Maio está no Market Days Supply. Os BEV já não aparecem como o grupo motopropulsor de menor rotação. Pelo contrário, apresentam agora o MDS mais baixo entre os principais tipos de combustível na Europa. A melhoria reflecte uma procura de curto prazo mais activa, embora ainda sensível ao preço e aos descontos nos veículos novos.
“Estes números têm de ser lidos com prudência. Sabemos que a procura por BEV usados é sensível ao preço do combustível e ao ritmo dos descontos no novo, mas a inversão no Market Days Supply é demasiado clara para ser ignorada. Mostra que o comprador europeu já não vê o eléctrico usado como uma aposta arriscada quando a aritmética do depósito muda”, afirma o Regional Head of RV Forecast e Market Expert do Indicata, Yoann Taitz.
Híbridos convencionais reforçam o papel de compromisso
Num mercado menos previsível, os híbridos convencionais surgem como uma escolha equilibrada. Mantêm a familiaridade dos veículos a combustão, reduzem a exposição aos combustíveis e oferecem maior estabilidade de valor residual. Já os plug-in enfrentam uma posição mais difícil. Competem com os ICE na conveniência de utilização e com os BEV na promessa de custos de mobilidade mais previsíveis.
Gasolina e diesel continuam fortes, mas com mais atrito
Os ICE continuam a ser a espinha dorsal do mercado europeu de usados. Têm escala, utilização universal e comportamento de revenda mais previsível. Mas a sua vantagem já não é tão confortável: combustíveis mais caros tornam estes modelos mais difíceis de defender no retalho.
A Europa divide-se em mercados cada vez mais diferentes
O relatório do Observatório Indicata sublinha que não existe uma única realidade europeia. A maturidade dos mercados EV, os incentivos fiscais, os volumes de electrificados novos e o apoio político nacional estão a criar respostas muito diferentes entre países. O Reino Unido é destacado como exemplo de desequilíbrio, com o mandato ZEV a introduzir volumes elevados de electrificados num mercado que ainda tem dificuldade em absorvê-los.
Preços, modelos e marcas chinesas aumentam a pressão
Excluindo a Turquia, os preços médios europeus ficaram praticamente estáveis, apenas 0,1 pontos percentuais acima de Janeiro de 2020. Entre os modelos até quatro anos mais vendidos por volume surgem Volkswagen Golf, Peugeot 208 e Volkswagen T-ROC. Nos mais rápidos a vender, destacam-se Tesla Model 3, MG 5 e Tesla Model Y. O relatório nota ainda que as marcas chinesas já influenciam os referenciais de preço em mercados como Reino Unido, Espanha, Itália, Dinamarca, Polónia e Noruega.
Portugal acima da média europeia
Portugal apresenta-se um pouco acima da Europa. O índice de preços de retalho está 1,4 pontos percentuais acima de Janeiro de 2020. Nos modelos até quatro anos, as vendas em volume são lideradas pelo Peugeot 2008 com MDS de 62,0, seguido do Peugeot 208 com 64,2 e do Citroën C3 com 54,8. Nos mais rápidos a rodar nos parques, o MG 4 faz 12 rotações de stock com MDS de 29,3, o BYD Atto 3 também 12 rotações e MDS de 31,3, e o Kia Niro 11 rotações e MDS de 31,4.
