Stocks rodam mais devagar e aumentam pressão sobre preços dos usados segundo relatório do INDICATA

O mercado europeu de veículos usados ainda não entrou numa fase de descida generalizada dos preços, mas os indicadores de setembro mostram um aumento dos stocks e um abrandamento da rotação, com particular incidência nos veículos seminovos.

De acordo com os dados do INDICATA, os veículos com dois anos ou menos representam atualmente 39,89% do stock europeu, mas apenas 30,12% das vendas, traduzindo uma diferença de 9,77 pontos percentuais entre a oferta disponível e a procura efetiva.

Em sentido contrário, os automóveis com cinco ou mais anos correspondem a 37,04% do stock, mas representam 44,78% das transações. Já os veículos entre os três e os quatro anos apresentam uma situação mais equilibrada, com 23,08% do stock e 25,10% das vendas.

Outro dos sinais identificados pelo INDICATA é o aumento do Market Days Supply, indicador que mede o número de dias necessários para escoar o stock disponível ao ritmo atual das vendas.

Nos veículos elétricos a bateria, este indicador voltou a aproximar-se dos 68 dias, depois de ter atingido valores próximos dos 47 dias durante a primavera. Nos híbridos convencionais aproxima-se dos 70 dias, enquanto os modelos a gasolina rondam os 73 dias e os diesel os 80.

Nos híbridos plug-in, o Market Days Supply chega aos 87 dias, enquanto nos mild hybrid (MHEV) atinge aproximadamente 92 dias, o valor mais elevado entre as principais motorizações.

Apesar desta evolução, o INDICATA alerta que ainda não existe histórico sazonal suficiente para determinar quanto deste aumento corresponde ao comportamento normal do mercado nesta altura do ano e quanto poderá representar uma deterioração efetiva da capacidade de absorção.

Os seminovos são apontados como a faixa potencialmente mais exposta à pressão sobre os preços. A concorrência direta com veículos novos, beneficiando em muitos casos de descontos dos fabricantes, campanhas financeiras e incentivos comerciais, reduz a diferença de preço que tradicionalmente justificava a aquisição de uma viatura já matriculada.

Caso os veículos mais recentes permaneçam demasiado tempo em stock, os vendedores poderão ser obrigados a reposicionar os preços para recuperar rotação, podendo essa pressão posteriormente estender-se aos automóveis com três ou quatro anos.

Nos elétricos, apesar do aumento dos dias em stock, a relação entre oferta e vendas continua favorável. Os BEV representam 10,66% das transações europeias e cerca de 8,86% do stock, o que significa que continuam a vender proporcionalmente acima do seu peso na oferta.

O índice europeu de preços de retalho dos BEV encontra-se atualmente em 64,46% do nível registado em janeiro de 2020, embora tenha recuperado ligeiramente face aos valores próximos dos 62% observados anteriormente.

“Os elétricos demonstraram que existe procura quando o preço corresponde à realidade económica do comprador, mas setembro mostra também que nenhuma motorização está isolada da dinâmica de stock. Uma viatura pode continuar a vender relativamente bem e, simultaneamente, começar a acumular mais dias em stock”, afirma Yoann Taitz, Regional Head of RV Forecast e Market Expert do INDICATA.

Segundo o responsável, para quem gere valores residuais, importa acompanhar “não apenas o preço ou a quota de vendas, mas a velocidade a que cada mercado consegue absorver o volume disponível sem recorrer a novas correções de valor”.

Também os MHEV têm vindo a ganhar peso no mercado, representando já 12,70% das vendas europeias, acima dos 10,66% dos veículos elétricos a bateria. Contudo, o elevado número de dias em stock revela que esse crescimento resulta igualmente da transformação das gamas dos fabricantes, que têm substituído versões tradicionais a gasolina e diesel por variantes mild hybrid.

Para os operadores do mercado de usados, o INDICATA considera que os próximos meses serão determinantes. Se a rotação recuperar, o comportamento de setembro poderá revelar sobretudo um efeito sazonal. Mas, se o stock continuar a aumentar mais rapidamente do que as vendas, a pressão sobre os preços poderá intensificar-se.

Para o mercado português, a recomendação passa por acompanhar de forma próxima a relação entre idade, preço, tempo em stock e profundidade da procura, sobretudo num contexto em que os veículos seminovos competem diretamente com campanhas comerciais promovidas pelas marcas no mercado de automóveis novos.

 

Newsletter

Receba os artigos Usados Auto na sua caixa de correio. Registe aqui o seu endereço de email.